O espiritismo é uma religião? / Lembrar Humberto Mariotti

[1 – O espiritismo é uma religião?]

– in Prefácio dos tradutores, Carácter da obra e suas qualidades essenciais.

este texto, seguido por uma alusão documentada a respeito de Humberto Mariotti, aqui citado, é a primeira Nota Final (página 307) que se encontra inserida na nossa tradução de “O Livro dos Espíritos”.

Este é um assunto que tem tido interpretações diferentes no meio espírita. No livro “O que é o Espiritismo”? Kardec diz-nos:

“O espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma filosofia. Como ciência prática, trata das relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, esclarece as consequências morais derivadas dessas relações”.

Numa definição de espiritismo tão clara como esta, Allan Kardec não mencionou o termo “religião”.

Talvez prevendo que esse problema pudesse colocar-se no futuro, explicou muito bem o seu ponto de vista no discurso que fez na Sociedade de Paris no dia 1 de novembro de 1868, publicado na Revista Espírita do mês seguinte com o título: “O espiritismo é uma religião”? Todo o artigo é bastante importante e merece uma leitura integral. Porque é muito longo, vamos aqui ver só alguns excertos.

Kardec utiliza como ponto central do seu discurso a importância daquilo a que chamou “a comunhão de pensamentos.” Falou do poder da união de pensamentos capaz de gerar reações extraordinárias de efeitos morais e físicos.

Revista Espírita de dezembro de 1868 (excertos):

“…Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; com efeito, é aí que podem e devem exercer a sua força, porque o objetivo deve ser a libertação do pensamento das amarras da matéria. Infelizmente, a maioria afasta-se deste princípio à medida que a religião se torna uma questão de forma. Disto resulta que cada um, fazendo o seu dever consistir na realização da forma, julga-se livre de dívidas para com Deus e para com os homens, já que praticou uma fórmula. Resulta ainda que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por sua própria conta e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de fraternidade em relação aos outros assistentes; fica isolado no meio da multidão e só pensa no céu para si mesmo.

Por certo não era assim que o entendia Jesus, ao dizer: “Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome, aí estarei entre elas.” Reunidos em meu nome, isto é, com um pensamento comum; mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios. Ora, qual é o princípio fundamental da mensagem de Jesus ? A caridade em pensamentos, palavras e ações…”

“…Se é assim, perguntarão: então o espiritismo é uma religião ? Sem dúvida! No sentido filosófico, o espiritismo é uma religião, e vangloriamo-nos por isso, porque funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.

Por que motivo, então, temos declarado que o espiritismo não é uma religião ?

Por não haver senão uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; porque desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o espiritismo não tem.

Se o espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé;

uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimónias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a nossa opinião se levantou.

Não tendo o espiritismo nenhuma das características de uma religião, na aceção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que motivo simplesmente se diz: pensamento filosófico e moral.

As reuniões espíritas podem ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que se ocupam; pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que, por isto, sejam tomadas por assembleias religiosas.

Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuance é perfeitamente clara, e a aparente confusão não provém senão da falta de uma palavra para cada ideia …”

 

CONCLUSÕES:

Lidos atentamente estes excertos da Revista Espírita, ficamos com ideias suficientemente esclarecidas para não confundirmos o espiritismo com as organizações histórico-culturais dogmáticas, com fortíssimas ligações aos poderes político-estratégicos, que têm assumido o papel das:

“…castas sacerdotais com seu cortejo de hierarquias, cerimônias e privilégios”; (…) e das “.ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a nossa opinião se levantou.”

Humberto Mariotti (1905 – 1982) grande intelectual que foi por duas vezes presidente da Confederação Espírita Argentina, no fim dos anos 30 e durante os anos 60 do século XX, elaborou no prólogo escrito para a obra El Sermón de la Montana, uma síntese especialmente feliz que nos ajuda a acomodar uma cultura científico-filosófica de índole positiva e racionalista, com a espiritualizada atitude íntima de tantos dos adeptos espíritas:
“…O espiritismo, nos estudos universais que realiza,
dedica à inteligência a ciência,
ao pensamento a filosofia
e ao sentimento a religião…”

Esta distribuição dos diferentes horizontes que o espiritismo contempla, pelas diversas formas do potencial humano, permite-nos acomodar a análise da fenomenologia mediúnica com o pensamento racional e com a subjetividade íntima. Os factos devem ser considerados como factos, as ideias ordenadas como ideias, restando livres os sentimentos para vibrar do modo que mais convier à pessoa. Isso só pode suceder num plano totalmente livre dos constrangimentos do dogma, do pensamento fechado, da repressão íntima e da intolerância coletiva.

Os adeptos e estudiosos do espiritismo são tão fortemente sensíveis à ideia de Deus como ao uso da razão crítica; são tão assíduos praticantes e beneficiários da prece, como estão disponíveis para entender a complexidade do mundo e a memória da Humanidade e as suas contradições.

O desenvolvimento das relações sociais e as contingências do trabalho e da vida não os incapacitam de se sentirem perto dos seus queridos ausentes, íntimos confidentes e agentes invisíveis da espiritualidade envolvente.

Porque é sempre possível analisar racionalmente factos concretos, ao mesmo tempo que se organizam ideias produtivas e harmoniosas enquanto se eleva o pensamento a Deus com um sorriso, uma lágrima ou uma prece. (JCB/MCB)

 

HUMBERTO MARIOTTI

O GRANDE PEDAGOGO ESPÍRITA / MEMBRO DA Confederação Espírita Argentina    (1905 – 1982)

O site vem apresentar mais um grande Gigante e Divulgador da Doutrina Espírita originário dos Países da América Espanhola.

Apresentação da biografia:
Humberto Mariotti, filósofo, poeta, jornalista, escritor e dirigente espírita, nasceu em Zárate, província de Buenos Aires, Argentina, em 11 de junho de 1905. Desde cedo manifestou uma inteligência precoce e vocação para a literatura. Frequentou cursos de veterinária, jornalismo, pedagogia em 1923, 1940 e 1947, respectivamente. A filosofia, a literatura e a zoologia foram suas grandes paixões. De 1937 a 1960 atuou como jornalista e foi professor em vários estabelecimentos de ensino privados.

Na mocidade exerceu expressiva liderança no movimento juvenil espírita argentino. Nesse período tomou contato com o pensador espírita Manuel S. Porteiro (1881-1936), cujo pensamento influenciou decisivamente seu modo de agir e pensar. Tornou-se amigo, companheiro e fiel seguidor das ideias de Porteiro.

Ao lado do escritor e conferencista espírita Santiago Bossero (1903-1967), costumava frequentar a humilde residência de seu mestre, onde passavam dias debatendo, estudando e escrevendo sobre Espiritismo. Os dois chegavam num Ford repleto de mantimentos e as conversas, regadas a mate e muito bom humor, certamente ficaram marcadas de forma indelével no jovem Mariotti.

Porteiro e Mariotti formavam uma dupla doutrinária admirável. Ambos foram eleitos para representar a Confederação Espírita Argentina (CEA) no V Congresso Espírita Internacional, realizado em Barcelona, na Espanha, de 1º a 10 de setembro de 1934. Mariotti tinha nessa época 29 anos. Porteiro era o presidente da CEA e Mariotti, o secretário-geral.

A defesa radical do Espiritismo como ciência integral e progressiva, sem os prejuízos do sincretismo e do religiosismo, pode ser conferida nos anais desse importante evento, com notável participação da delegação argentina, especialmente de Porteiro e Mariotti, contrários às tendências religiosas e esotéricas que disputavam espaço com os espíritas kardecistas nesse congresso.

Mariotti acompanhou os últimos momentos de Porteiro. Quando adoeceu e teve de amputar uma perna, ele e Bossero providenciaram a prótese, a perna mecânica para o amigo. Em seu passamento, foi Mariotti quem proferiu o discurso fúnebre.

Fiel ao pensamento de seu mestre, Mariotti prosseguiu no trabalho de divulgação espírita, destacando-se como escritor, dirigente espírita e eloquente conferencista. A Confederação Espírita Pan-americana foi fundada em 1946 sob sua orientação, da qual ocupou a vice-presidência em duas oportunidades. Também presidiu a Confederação Espírita Argentina em duas gestões (1935-37 e 1963-67).

No dia-a-dia do movimento espírita, Mariotti militou na Sociedade Espírita Victor Hugo, que presidiu ao lado de Bossero por várias gestões. Dirigiu por muitos anos a revista La Idea, órgão de divulgação da CEA. Como educador espírita, atuou no Instituto de Enseñanza Espírita, tendo sido presidente e secretário de propaganda do Ateneo de Letras y Artes, extinta entidade educativa mantida pela confederação argentina. Alguns anos antes de desencarnar, atuou como dirigente da Sociedad Constancia, de Buenos Aires. Além dessas atividades, Mariotti também foi médium psicógrafo e psicofônico.

Foi um notável poeta, aclamado e respeitado, inclusive no meio não-espírita. Em sua verve poética, desenvolveu o que chamava de poesia secreta, com pleno destaque temático ao caráter numinoso, metafísico e espiritualista, cuja inspiração nos princípios espíritas era evidente. Demonstrou também especial interesse pela poesia mediúnica do médium Chico Xavier.

Proferiu conferências em diversos países da América Latina – no Chile, Colômbia, Uruguai, Porto Rico e, especialmente, no Brasil –, devido aos laços de amizade com os escritores espíritas Deolindo Amorim e Herculano Pires.

Seus livros e artigos foram publicados em quase todos esses países, inclusive na Europa. Na Argentina, além das publicações espíritas, muitos periódicos não-espíritas editavam seus artigos aos domingos. No Brasil, escreveu para várias revistas espíritas como Aurora, Reformador, Educação Espírita, Revista Internacional de Espiritismo; e nos periódicos espíritas Espiritismo e Unificação, Mundo Espírita, dentre outros.

Podemos ver seus textos e ensaios nos anais do Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB) e nos congressos realizados pela saudosa Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas (ABRAJEE). Colaborou também durante muitos anos com a revista Estudos Psíquicos, de Portugal.

A partir dos anos 60, Mariotti adere a princípios e conceitos mais próximos ao pensamento do filósofo espírita brasileiro Herculano Pires, distanciando-se de Porteiro. Passa a admitir a conceituação tríplice do Espiritismo, dando especial ênfase ao aspecto religioso da doutrina espírita. É muito provável que devido a essa mudança de rumo, seus textos puderam ser aceitos e publicados por instituições espíritas de orientação religiosa, como a Federação Espírita Brasileira.

Todavia, isso não descarta seu brilho intelectual e a capacidade impressionante de correlacionar a filosofia espírita com as questões mais prementes de nosso tempo, sempre numa linguagem vibrante, visionária e, em muitos momentos, mais poética do que filosófica, quase profética. Sua obra filosófica e literária é vasta, difícil de se abarcar de modo completo.

Muitos escritos seus ainda estão inéditos e grande parte de sua produção intelectual ainda permanece desconhecida.

A relação completa das obras desse grande pensador espírita portenho ainda está por ser feita. Relacionamos a seguir as mais conhecidas, algumas com a data de lançamento. A maioria está indisponível. Mesmo assim, dá para se ter uma ideia da variedade de sua produção intelectual:

• Dialéctica y Metapsíquica (1940);
• Víctor Hugo y la Filosofia Espirita (1955);
• Parapsicología y Materialismo Histórico (1963);
• De La Esencia a La Existencia (1968);
• El Espíritu, la Ley y la Historia (1968);
• Significado Existencial del Acto Poético;
• Don Pancho Sierra, Resero del Infinito;
• Pancho Sierra y el Porvenir de la Medicina;
• Los Ideáis Espiritas en la Sociedad Moderna;
• El Ocultismo Numinoso en el Fenómeno Poético;
• Victor Hugo, el Poeta del Más Allá;
• En Torno al Pensamiento Filosófico de J. Herculano Pires;
• Vida y Pensamiento de Manuel Porteiro;
• Herculano Pires: Filósofo y Poeta;
• Los Asombros Terrestres;
• La Parapsicología a la Luz de la Filosofía Espirita; • La Muerte de Dios.
Poesia:
• Canciones Escritas a la Luz de la Luna (1950);
• Canciones Escritas en una Vida Anterior (1951);
• Canciones que Vienen del Alba (1967);
• Los Asombros Terrestres (1967);
• Pájaros del Arco Iris (1968) – prêmio Fondo Nacional de las Artes; • Marietta.
Obras Inéditas:
• El Alma de los Animales a Luz de la Filosofía Espirita; • La Zoofilosofía en la Metafísica del Occidente;
• El Pensamiento Espiritualista de A. L. Palácios.

Para ver e baixar as suas obras:
http://www.autoresespiritasclassicos.com/Autores%20Espiritas%20Classicos%20%20Diversos/Humberto%20Mariotti/Humberto%20Mariotti.htm

Humberto Mariotti desencarnou em 17 de maio de 1982. Foi sepultado no dia seguinte, no Cemitério do Oeste, em Buenos Aires, com a presença de uma grande quantidade de espíritas, amigos e admiradores. Margarita S. de Testa, representando a Federação Argentina de Mulheres Espíritas, César Bogo pela Confederação Espírita Argentina e Dante Culzoni Soriano, da Confederação Espírita Pan-americana, foram algumas das lideranças espíritas presentes no sepultamento.

Fontes de consulta:

• Os Mestres do Espírito – Planeta Especial. Tradução Luís Carlos Lisboa, 1ª edição, São Paulo, Editora Três, s/d.
• Humberto Mariotti, por Natalio Ceccarini in revista Aurora – ano IV – nº 9 – agosto de 1982, Rio de Janeiro. Revista dirigida por Ademar Constant.
• El Espiritismo y la Creación Poética – Jon Aizpúrua – 1ª edição – Ediciones CIMA – Caracas, Venezuela, 1993.
• Anais do V Congreso Espiritista Internacional – Libro Resumen – Barcelona – 1º al 10 de septiembre de 1934 – Edição digital produzida pela Área de Internet da Federação Espírita Espanhola.

Duas leis morais que mudam de nome

“passagem para a Atlântida”, grafite e acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1998

 Livro III Capítulo V e Capítulo VI

Continuamos a abordar na última série de notícias aqui publicadas, temas relacionados com a nossa tradução de “O Livro dos Espíritos”, convictos – da nossa parte – que a análise aprofundada dos aspectos linguísticos que com o mesmo se relacionam, se encontra apenas no seu começo. Isso também faz parte da ideia que apresentámos de fazer de “O Livro dos Espíritos uma Obra Viva e Aberta.

A revisão linguística a que procedemos vai ser muito incompletamente apreciada se os leitores só repararem na mudança do nome de duas das leis morais.
Realmente, a tradução foi muito mais além, e só daqui a algum tempo isso irá tornar-se claro.
A mudança do nome de duas leis (a lei da destruição, que para nós fica designada como lei da transformação; e a lei da conservação, que para nós fica designada como lei da sobrevivência) não obedece ao capricho de marcar diferenças, mas única e simplesmente porque consideramos que as traduções até agora em vigor são equívocos sérios do ponto de vista cultural e filosófico, mais do que simples erros de opção formal. Ora vejamos:

A palavra “transformação”

Perguntas 728 a 736 (sobre a ideia da morte como transformação necessária ou como destruição abusiva)
A palavra francesa “destruction”, nas várias versões em língua portuguesa de “O Livro dos Espíritos” foi, até ao presente, traduzida pela palavra “destruição”. Prevaleceu o conceito incorreto da “tradução à letra”.
Assinalemos o distanciamento semântico da palavra “destruição” relativamente à ideia da morte como momento feliz de regresso à pátria espiritual, episódio natural da transformação evolutiva, permanente e universal, que caracteriza a cosmovisão espírita.
Nos dicionários de português o primeiro significado da palavra destruir é: “proceder à destruição de; causar destruição em; demolir, arrasar; aniquilar”. Esses significados remetem o termo para o seu mais nítido campo significativo, tal como está claramente definido na pergunta n° 752 desta mesma obra, ao definir de modo contundentemente negativo o “instinto de destruição”:

Podemos ligar o sentimento de crueldade ao instinto de destruição?
É o instinto de destruição no que ele tem de pior, porque se a destruição é às vezes necessária, a crueldade nunca é necessária. Ela é sempre a consequência de uma natureza má.

De resto, o próprio teor da pergunta n° 730 vem em apoio do que dizemos acima:

Uma vez que a morte deve conduzir-nos a uma vida melhor, livrando-nos dos males deste mundo, sendo mais de desejar do que de temer, porque é que o ser humano tem por ela um horror instintivo que a torna motivo de receio?

Como forma de justificar a adoção da palavra “transformação” como tradução mais correta de “destruction”, para além da pesquisa feita na base de dados Ortolang, podemos ainda socorrer-nos de outros momentos desta mesma obra de Allan Kardec. Recorremos ao texto em francês da resposta a esta mesma pergunta n° 728, que é totalmente eloquente a este respeito:

Il faut que tout se détruise pour renaître et se régénérer ; car ce que vous appelez destruction n’est qu’une transformation qui a pour but le renouvellement et l’amélioration des êtres vivants.

Traduzindo : É necessário que tudo se extinga, para que renasça e se regenere; porque aquilo que chamais a morte do ser vivo é apenas uma transformação que tem por objetivo a renovação e o melhoramento de todos eles.

No comentário à pergunta n° 182, Allan Kardec esclarece que nos mundos mais evoluídos do que a Terra, a morte não causa a mínima apreensão aos Espíritos, porque a aceitam sem temor, como uma simples “transformação”:

L’intuition qu’ils ont de leur avenir, la sécurité que leur donne une conscience exempte de remords, font que la mort ne leur cause aucune appréhension; ils la voient venir sans crainte et comme une simple transformation.

Traduzindo: A intuição que têm do futuro, a segurança que lhes dá uma consciência isenta de remorsos, fazem com que a morte não lhes cause nenhuma apreensão: vêem-na aproximar-se sem medo e como uma simples transformação.

Isto é: A intuição que têm do futuro, a segurança que lhes dá uma consciência isenta de remorsos, fazem com que a morte não lhes cause nenhuma apreensão: veem-na aproximar-se sem medo e como uma simples transformação.
Coube ao francês Antoine Lavoisier a honra de dar nome a essa importantíssima lei da ciência, que encerra até profundo significado filosófico, mediante a conhecidíssima expressão: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
As razões de natureza científico-cultural que podem ter levado Allan Kardec à adoção do termo “destruction”, neste capítulo de “O Livro dos Espíritos”, foram esclarecidas por Gabriel Delanne, um dos mais importantes seguidores de Kardec, na sua obra “L’Evolution Animique”, no que toca às investigações e descobertas efetuadas, por altura da publicação de “O Livros dos Espíritos”, pelo cientista francês Claude Bernard, fundador da medicina experimental, sobretudo na sua obra publicada em Paris no ano de 1867 “Principes de Médecine Expérimentale”.
Quanto ao uso corrente da língua portuguesa, se alguém morre de morte natural ou acidental, ninguém dirá entre nós – em sentido próprio – que essa pessoa “se destruiu” ou “foi destruída”.

Juntámos aos argumentos disponíveis no próprio texto do original redigido por Allan Kardec, o comentário seguinte:

A morte, transformação libertadora

Pergunta 339 (O momento da encarnação é seguido de perturbação semelhante ao que se verifica na desencarnação?)

A morte aparece na resposta a esta pergunta bem caracterizada como uma transformação libertadora, o contrário da destruição: “na hora da morte, o Espírito deixa a escravidão”. A que corresponde, no original: “A la mort, l’Esprit sort de l’esclavage”.

A palavra “sobrevivência”

Perguntas 702 – 703 (sobre o instinto de sobrevivência)
Preferimos a palavra “sobrevivência” à palavra “conservação”, pela contaminação semântica que esta arrasta consigo, longe da generalidade antropológica que oferece a primeira. Ao fazer esta opção, sabemos que estão a ser quebrados velhos hábitos de tradução de “O Livro dos Espíritos” para a língua portuguesa. Julgamos, entre outras razões, que foi o conceito da “tradução à letra”, que de maneira nenhuma perfilhamos, que justifica a tradução do termo francês original “conservation” pelo termo português “conservação”.
Consultando muito cuidadosamente a base de dados francesa Ortolang, criada pelo CNRTL-Centre National de Ressources Textuelles et Lexicales, uma boa quantidade de razões recomenda a opção do termo “sobrevivência” e outras tantas razões prejudicam a escolha do termo “conservação”.
Poderia até esta última ser preferida, caso se compusesse com uma segunda palavra, isto é: “conservação da espécie”. Mas a ideia de “sobrevivência” tem maior grau de generalidade e é mais adequada à variedade de usos que a palavra tem ao longo de “O Livro dos Espíritos”, onde o uso do termo “conservação” sempre apresenta inconvenientes expressivos. Concentrar a designação da lei numa só palavra também é vantajoso..

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ALLAN KARDEC desaconselhou grandes coletivos espíritas

Dando sequência ao primeiro destaque das Notas Finais da nossa tradução para a língua portuguesa de Portugal dos nossos dias, estamos hoje a inserir  a Nota Final  que tem por tema “a organização do espiritismo”, com o qual Allan Kardec muito se preocupou durante todo o período que tão afincada e generosamente se dedicou à sua tarefa de organizar o espiritismo (usando as suas póprias palavras).
Allan Kardec foi muito claro nos avisos que fez a esse respeito, por ter adivinhado os riscos que corria o espiritismo face às perspectivas de apropriação por grandes grupos organizados de uma doutrina que tem essencialmente a ver com a íntima atitude espiritual de cada pessoa, sob a orientação do raciocínio desinteressado  e da reta consciência moral.


[ Allan Kardec e a organização do espiritismo] Nota Final situada na página nº 257 da primeira edição.

Muitas foram as intervenções de Allan Kardec, de que eloquentemente nos falam os seus livros e a Revista Espírita, a respeito da organização do espiritismo e dos cuidados que os seus dirigentes deverão tomar para impedir a centralização abusiva e os desvios dogmáticos.
Notemos que têm sido esses vícios que, há milénios, têm retirado à Humanidade a capacidade de se auto determinar social, cultural e moralmente. Fundamental é que a cultura espírita possa configurar-se como abordagem racional, tolerante e objectiva do mundo e da vida, de modo a permitir a realização concreta da Lei do Progresso.
As citações abaixo não passam de referências esparsas colhidas através da leitura das fontes indicadas. Contudo, ao mesmo tempo que designam os núcleos pouco numerosos de interessados como forma ideal de agremiação espírita, afirmam a decidida rejeição das várias formas de concentração de poder nas organizações espíritas, que possam reduzir o seu sentido de honestidade moral e intelectual.

Revista Espírita de Dezembro de 1861, sobre “Organização do Espiritismo”

“…aos que têm a coragem da sua opinião, e que estão acima das mesquinhas considerações mundanas, diremos que o que têm a fazer se limita a falar abertamente do Espiritismo, sem afectação, como de uma coisa muito simples e muito natural, sem pregá-la, e sobretudo sem buscar nem forçar convicções, nem fazer prosélitos a todo custo. O Espiritismo não deve ser imposto. Vem-se a ele porque dele se necessita, e porque ele dá o que não dão as outras filosofias…”
“…é sabido que as grandes reuniões são menos favoráveis às belas comunicações e que as melhores são obtidas nos pequenos grupos. É necessário, pois, empenhar-se em multiplicar os grupos particulares. Ora, como dissemos, vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais pela propaganda do que uma sociedade única de quatrocentos membros.…”
“…Quer a sociedade seja una ou fraccionada, a uniformidade será a consequência natural da unidade de base que os grupos adoptarem. Ela será completa em todos os grupos que seguirem a linha traçada pelo Livro dos Espíritos e o Livro dos Médiuns. Um contém os princípios da filosofia da ciência; o outro, as regras da parte experimental e prática. Essas obras estão escritas com bastante clareza para não dar lugar a interpretações divergentes, condição essencial de qualquer nova doutrina…”

“O Livro dos Médiuns” − Segunda parte

– “Das manifestações espíritas” Capítulo XXIX – “Das reuniões e das Sociedades Espíritas”:
“…A grande dificuldade de reunir grande número de elementos homogéneos (…) leva-nos a dizer que, no interesse dos estudos e por bem da causa mesma, as reuniões espíritas devem tender antes à multiplicação de pequenos grupos, do que à constituição de grandes aglomerações….”
“…As grandes assembleias excluem a intimidade, pela variedade dos elementos de que se compõem; exigem sedes especiais, recursos pecuniários e um aparelho administrativo desnecessário nos pequenos grupos. A divergência de carácter, das ideias e das opiniões, é nelas mais frequentes e oferece aos Espíritos perturbadores mais facilidade para semearem a discórdia. Quanto mais numerosa é a reunião, tanto mais difícil é conterem-se todos os presentes…”
“…Os grupos pequenos jamais se encontram sujeitos às mesmas flutuações. A queda de uma grande Associação seria um insucesso aparente para a causa do Espiritismo, do qual os seus inimigos não deixariam de tirar partido. A dissolução de um grupo pequeno passa despercebida e, além disso, se um se dispersa, vinte outros se formam nas proximidades. Ora, vinte grupos, de quinze a vinte pessoas, terão mais êxito e muito mais farão pelo ensino do espiritismo, do que uma assembleia de trezentos ou de quatrocentos indivíduos…”

Revista Espírita de Dezembro de 1868; “Constituição transitória do Espiritismo”:

“…Estabelecida a necessidade de uma direção, de quem receberia poderes o seu chefe? Será aclamado pela totalidade dos adeptos dispersos pelo mundo inteiro? É uma coisa impraticável. Se se impuser pelo seu próprio poder, será aceite por uns, rejeitado por outros e vinte pretendentes poderão surgir disputando a sua posição: seria ao mesmo tempo o despotismo e a anarquia. Semelhante ato seria próprio de um ambicioso, e ninguém seria menos adequado que um ambicioso, e por isto mesmo orgulhoso, para dirigir uma doutrina baseada na abnegação, no devotamento, no desinteresse e na humildade. Estando fora do princípio fundamental da Doutrina, não poderia senão falsear-lhe o espírito….”
“…pretender que o Espiritismo em toda a parte seja organizado da mesma maneira; que os espíritas do mundo inteiro sejam sujeitos a um regime uniforme, a uma mesma maneira de proceder; que devam esperar a luz de um ponto fixo no qual deverão fixar-se, seria uma utopia tão absurda como esperar que todos os povos da Terra formem uma só nação, governada por um único chefe, regida pelo mesmo código de leis e sujeita aos mesmos costumes…”
“…O Espiritismo é uma questão de essência; ligar-se à forma seria uma puerilidade indigna da sua grandeza. Os verdadeiros centros espíritas deverão dar-se as mãos fraternalmente e unirem-se para combater os seus inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo…”

O nome de Jesus

um rosto impossível de retratar

Esta é a terceira notícia da série que reproduz Notas Finais da nossa tradução para português de “O Livro dos Espíritos”.

[9] – O nome de Jesus – Introdução VI – Resumo da Doutrina dos Espíritos
É neste ponto de “O Livro dos Espíritos” que surge a primeira referência ao nome de Jesus, tendo utilizado Allan Kardec o adjetivo “Cristo”, o que nos obriga a esclarecer qual foi o motivo que nos levou, ao longo de toda esta obra, a usar para designá-lo exclusivamente o seu verdadeiro nome.
Há dois mil anos, no Próximo Oriente como em muitas outras partes do mundo, as pessoas não tinham nomes tão organizados como agora, com sobrenomes e apelidos. Tinham apenas um nome pessoal ao qual se juntava um designativo para diferençar pessoas com o mesmo nome: o seu local de origem, a profissão ou uma característica muito própria do indivíduo.
Jesus (derivado do nome judaico Jeshua) era conhecido no local onde vivia como filho de José, o carpinteiro, e mais genericamente como “o nazareno”, por ter nascido em Nazaré. É muito comum, em meio espírita usar-se esta designação, Jesus de Nazaré.
No tempo de Allan Kardec, numa sociedade profundamente influenciada pelo pesadíssimo predomínio católico, “Jesus Cristo” era designação usual, tanto que uma imensa maioria de católicos julgava que Cristo seria parte integrante do nome de Jesus, o que não é verdade.
Sendo o espiritismo uma cultura que é orientada pela ordenação racional de factos comprováveis pela experiência, isto é, uma filosofia não dogmática que parte de uma ciência de observação, não pode correr o risco de se deixar embalar por ideias que não são apenas diferentes, são perfeitamente antagónicas.
Ou seja, o espiritismo não aceita dogmas como o da designada “santíssima trindade” que sacralizou Jesus de Nazaré, afastando-o da sua natureza humana, escamoteando o seu papel fundamental de modelo de comportamento moral que nos propõe o ensino dos Espíritos.
Isto é muito claro ao lermos a pergunta nº 625 de “O Livro dos Espíritos”, que pedimos leiam com profunda atenção:

Pregunta: Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu aos seres humanos, para lhe servirem de guia e modelo?
Resposta: Considerai o exemplo de Jesus; a que se segue o muito elucidativo comentário de Allan Kardec:

Jesus é, para os seres humanos, o tipo de perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a mais pura expressão da sua lei, porque estava animado do Espírito divino e por ter sido o ser mais puro que apareceu na Terra.
Se alguns dos que pretenderam instruir os seres humanos na lei de Deus algumas vezes os desviaram para falsos princípios, foi por se deixarem dominar por sentimentos demasiado terrenos e por terem confundido as leis que regem as condições da vida da alma, com as que regem a vida do corpo. Muitos deles apresentaram como leis divinas o que eram apenas leis humanas, criadas para servir as paixões e dominar os homens.

Sendo, portanto, modelo de homens, é impossível conceber Jesus como entidade por qualquer forma constituído de forma artificialmente diferente de qualquer um de nós, seus irmãos, também muito legitimamente honrados pela categoria inalienável de filhos de Deus.
“Cristo”, por seu turno, é um nome que deriva da palavra grega “christos”, que no contexto do cristianismo primitivo de influência greco-judaica inseria Jesus no elenco do messianismo judaico, que quer dizer exatamente “o messias”, “o enviado”, “o ungido”.

...

Paulo, que nunca conheceu pessoalmente Jesus, deu um primeiro passo nessa direção, quando criou “O Cristo da fé” que se afastava muito do Jesus histórico, cuja vida e mensagem lhe não interessavam, uma vez que ele centrava toda a sua doutrina na “morte e ressurreição” de Jesus. Quando o cristianismo começou a helenizar-se e a expandir-se entre os gentios (os não judeus), o título de Cristo passou a ser uma espécie de sobrenome.

Depois do colapso do poder dos Césares de Roma, esvaziados da prerrogativa da sua divinização que lhes era conferida pelo paganismo, tiveram que lançar mão da popularidade crescente e progressiva do cristianismo.
Este tinha avançado de forma imparável impulsionado pelos ensinamentos de Jesus de Nazaré, em coerência com as antigas sabedorias e com a vanguarda científico filosófica das escolas de pensamento Grego, nomeadamente Pitágoras, Sócrates e Platão (Vide capítulo III da Introdução de “O Evangelho segundo o Espiritismo”).
O Império romano, aliado ao poder de alguns altos dignitários do cristianismo nascente, apoderou-se do cristianismo para impor a universalidade da sua influência política e estratégica.
Cristo foi-se tornando uma expressão corrente, enquanto o Jesus ressuscitado recebia o sobrenome de “senhor” ou “kyrios”, fórmula que encaixa adequadamente nas determinações políticas que foram assumidas no Concílio de Niceia, no ano de 325, pelo Imperador Constantino, o grande, para obedecer exclusivamente a interesses de predomínio político e estratégico.

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Allan Kardec usou indistintamente as palavras Jesus, Cristo, e até Jesus Cristo com o mesmo significado. Porém, quer na ordem das ideias de carácter doutrinário, quer na ordem da consideração histórica da pessoa de Jesus, cento e cinquenta anos depois da elaboração de “O Livro dos Espíritos”, entendemos que é forçoso fazer opções quanto à utilização desta diversidade de nomes, que pode carregar consigo o peso de graves contradições.
A nossa decisão não é apenas linguística nem apenas doutrinária: respeita e faz a devida utilização da memória dos povos, leva em conta as trágicas consequências de mais de 1.700 anos de dogmatismos impiedosamente intolerantes e sangrentos.
Reforçando ideias, repetimos as esclarecidas palavras de Kardec:

“…Se alguns dos que pretenderam instruir os seres humanos na lei de Deus algumas vezes os desviaram para falsos princípios, foi por se deixarem dominar por sentimentos demasiado terrenos e por terem confundido as leis que regem as condições da vida da alma, com as que regem a vida do corpo. Muitos deles apresentaram como leis divinas o que eram apenas leis humanas, criadas para servir as paixões e dominar os homens.”

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um rosto impossível de retratar

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